19 de março de 2025

Santa Cruz - Almodôvar


Este território faz a transição do Algarve para o Alentejo, da serra para a planície. Desde tempos idos transeuntes trilharam antigos caminhos por vales e montes, entre montados e pousios. O convite à introspeção e contemplação da natureza seguem de braço dado. Ouvir o canto do melro, um cuco, avistar uma águia ou uma perdiz pode acontecer a qualquer momento, uma descoberta constante a acontecer na tranquilidade dos campos.

Chegados à ribeira do Vascão, junto a um moinho de água, passamos uma ponte pedonal e entramos no Alentejo. O Vascão surge-nos como um sítio com pegos aprazíveis e uma biodiversidade assinalável, que se torna convidativo a uma pausa e a retemperar forças para se tornar ao caminho.

Depois passa-se por Monte Branco na direção de um dos pontos marcantes do percurso, a Igreja Matriz de Santa Cruz. Aqui constamos a presença da Ordem de Santiago, visível nos símbolos do pórtico manuelino, nos fechos da abóbada da capela-mor e nos lavados da sacristia. A igreja fica fora da aldeia, está ladeado pela pequena capela da Senhora da Lapa, onde outrora acorriam os que padeciam de dores de cabeça. Também nas imediações deparamos com as ruinas da capela de S. Bento. Este era certamente sítio de romarias, de devoção, e de passagem de peregrinos.

Continuamos a trilhar caminhos que atestam a importância da Ordem de santiago por estas paragens, o sítio da “Dorte” (da Ordem), a sucessiva toponímica onomástica medieval, transportam-nos para o povoamento e cenários de outros tempos.

Em Almodôvar avistamos uma ponte medieval e entramos pela mítica E.N. 2 em direção ao centro. O Mercado Municipal apresenta painéis de azulejos do artista Jorge Colaço, encontramos a igreja matriz com a heráldica da Ordem de Santiago no pórtico. Por perto fica a Praça da República onde temos os antigos Paços do Concelho, agora museu dedicado à obra de Severo Portela, ilustre pintor que tem obra por todo o país. Logo ali, a igreja da misericórdia, uma janela manuelina, ao fundo o Convento de Nossa Senhora da Conceição, antiga escola teológica franciscana. A igreja ostenta um órgão de tubos com motivos orientais e altares de talha dourada, que nos impelem a passar por lá.

Um dos pontos de visita obrigatória é o Museu da Escrita do Sudoeste, dedicado à escrita mais antiga da Península Ibérica, enigmática grafia com mais de 2500 anos. Fica mesmo ao lado torre do relógio e no percurso dos Caminhos de Santiago.

Depois ruma-se a norte, passando pela antiga estrada de Ourique, em que os montados e os rebanhos de ovelhas preenchem o horizonte até à aldeia do Rosário, onde na igreja paroquial, entre as várias pinturas murais, surge a imagem de Santiago Mata-Mouros.

Um percurso recomendado, que nos transporta numa simbiose harmoniosa entre a natureza e o património, que chama por todos os que procuram desfrutar do tempo e do espaço.









 Fotografias Zito Colaço

28 de outubro de 2024

Monte da Cachamorra, Castro Verde.


Cachamorra

Nas serras e nos campos sem fim do interior, onde o vento sopra sem pedir licença e o horizonte se mede pelo passo do gado, o pastor e a sua Cachamorra são uma figura só. Mais do que um mero instrumento de trabalho, esta vara de madeira — quase sempre arrancada do tronco resistente de uma oliveira e esculpida pacientemente pelas mãos calejadas de quem a carrega — é a companheira inseparável da vida no campo.

É na imensidão aberta das pastagens que o tempo ganha outra dimensão. Nas longas horas em que o sol custa a mover-se no céu, o pastor senta-se num cabeço a vigiar a paisagem, puxa da navalha e molda a madeira, dando-lhe a forma e o peso exactos do seu intento. Cada sulco entalhado guarda uma intenção, e a fisionomia final do objecto nunca é fruto do acaso. A configuração da Cachamorra, com a sua extremidade mais robusta e nodosa, muda consoante o tipo de gado que percorre o campo: o peso necessário para guiar a força de um rebanho vacum não é o mesmo exigido para adestrar a agilidade das cabras nas escarpas, nem para orientar a serenidade das ovelhas no vale. Daí nascerem designações próprias para cada formato, nomes antigos que só quem conhece a lida do campo sabe pronunciar e reconhecer.

Mais do que apoiar os passos cansados nos caminhos pedregosos ou servir de aviso ao gado mais rebelde, a Cachamorra é a guardiã do pastor na solidão do campo. É o único escudo contra os perigos que espreitam na vegetação e os sobressaltos da bicharada. Cada marca na sua oliveira polida pelo uso conta uma história de pastoreio, de comunhão com a terra e de sabedoria ancestral, mantendo viva uma arte tradicional onde a utilidade e a vida no campo se fundem num único pedaço de madeira esculpido à mão.







Eucalipto de Cobres



Ribeira de Cobres

Campo Branco


A Cachamorra está associada ao ofício de pastor. Trata-se de uma vara de madeira, geralmente de oliveira esculpida pelo próprio pastor, que lhe dava a forma desejada. Dependendo da sua configuração e do tipo de gado que o pastor guardava assim era a designação do objecto.

 
Castro Verde 

Fotografias Zito Colaço

5 de junho de 2024

Javalis na Mata dos Medos. Bem Hajam.


 No dia Mundial do Ambiente, ontem 5 de Junho, tive um encontro imediato com um Javali na Mata dos Medos. Foi uma sensação única, de beleza e medo, que poucas pessoas talvez já sentiram... Um grande sinal para mim e para toda esta área protegida que tanto precisa.

Bem hajam.

21 de março de 2024

Feliz dia Mundial da Árvore e das Florestas


 Feliz dia Mundial da Árvore e das Florestas

ÁRVORES DO AMOR

Grandes, pequenas, formosas, circunspectas, imponentes ou frágeis. Dão, sem pedir nada. E são, simplesmente. Respiram, respiram-nos e fazem respirar. Amam, amam-nos e fazem-nos amar. Conta-se que um jovem cavaleiro cansado de travar batalhas infindáveis e de desfecho previsível refugiava-se na floresta. As árvores ouviam-no pacientemente e um dia decidiram falar-lhe. Amai-vos uns aos Outros Como Nós Vos Amamos. Tomado de assalto pela revelação, o cavaleiro decidiu ali mesmo abandonar a carreira militar e dedicar-se a uma vida nova de aprendizagem com aquelas árvores sagradas. Estamos certos de que todos teremos muito a aprender com o mistério das Árvores do Amor. A nossa mensagem também é simples. Amar-vores uns aos Outros Como Elas vos Amam. Parece fácil. E é.

Texto Nuno Costa
Fotografias Zito Colaço

20 anos